LOADING

Type to search

Cultura Destaque

Brasil de Pindorama e o Brasil do voto

Existe um Brasil anterior às siglas e aos palanques: é o Brasil de Pindorama, a “Terra das Palmeiras”. A cada quatro anos, quando a Copa do Mundo começa, é como se voltássemos a esse território ancestral onde as fronteiras da polarização perdem o sentido. Diante do verde e amarelo, o país reencontra uma unidade raríssima, ignorando, ainda que temporariamente, as fraturas sociais que definem o nosso dia-a-dia.

Roberto DaMatta, um dos maiores antropólogos do país, explica que o futebol no Brasil vai além do esporte. Ele é um ritual. Diferente da política, onde as regras parecem mudar conforme a conveniência dos poderosos, o futebol oferece um campo com limites claros e normas universais. Mesmo que, fora das quatro linhas, o esporte também sofra com suas próprias sombras e contradições. “É um dos poucos espaços onde o patrão e o empregado se reconhecem como pares”, escreveu.

Esse sentimento de pertencimento que chamo de “Pindorama” é, contudo, a nossa maior contradição. Durante os jogos, acessamos uma versão de nós mesmos que não precisa de um adversário ideológico para existir. Mas, aqui reside a nossa hipocrisia: essa união é apenas uma trégua.

Usamos o futebol para contar uma história positiva sobre quem somos, escondendo os ressentimentos debaixo do tapete. O campo de futebol funciona como uma arena onde dramatizamos nossos dramas nacionais, mas, ao apito final, voltamos a ser os mesmos antagonistas de sempre.

Se o futebol é um “código de integração social” que ajuda uma coletividade dividida a se afirmar, por que essa integração dura tão pouco? Talvez porque torcer seja fácil. Construir um país exige muito mais do que gritar um gol.

A Copa nos dá um vislumbre do que poderíamos ser se levássemos a ética das “regras do jogo” para o cotidiano da política. Enquanto isso, o ideal de Pindorama que aqui defendo segue sendo apenas um refúgio temporário, um intervalo no nosso conflito permanente. O espetáculo une, mas não cura. A pergunta que fica, portanto, não é quem levantará a taça, mas se seremos capazes de levar a civilidade mínima dos 90 minutos para a vida pública após o apito final.

Leia também: Menino tem voz idêntica à de Michael Jackson

Leave a Comment

Your email address will not be published. Required fields are marked *